domingo, 28 de março de 2010

A culinária brasileira com gostinho da África.


A culinária do Brasil tem uma nítida influência africana. É a essa conclusão que chegará quem se propuser a estudar, mesmo que superficialmente o tema. Segundo a Larousse (1995)

O negro introduziu na cozinha o leite de coco-da-baía, o azeite de dendê, confirmou a excelência da pimenta malagueta sobre a do reino, deu ao Brasil o feijão preto, o quiabo, ensinou a fazer vatapá, caruru, mungunzá, acarajé, angu e pamonha. A cozinha negra, pequena, mas forte, fez valer os seus temperos, os verdes, a sua maneira de cozinhar. Modificou os pratos portugueses, substituindo ingredientes; fez a mesma coisa com os pratos da terra; e finalmente criou a cozinha brasileira, descobrindo o chuchu com camarão, ensinando a fazer pratos com camarão seco e a usar as panelas de barro e a colher de pau. Além disso, o africano contribuiu com a difusão do inhame, da cana de açúcar e do dendezeiro, do qual se faz o azeite-de-dendê. O leite de coco, de origem polinésia, foi trazido pelos negros, assim como a pimenta malagueta e a galinha de Angola.

Ainda usando a mesma enciclopédia podemos montar um pequeno quadro com alguns pratos ainda hoje largamente presentes nas cozinhas brasileiras, principalmente no nordeste, e que são originários da África (para não ficar extenso citaremos apenas os iniciados com a letra A):

Ado
Doce de origem afro-brasileira feito de milho torrado e moído, misturado com azeite-de-dendê e mel. (No candomblé, é comida-de-santo, oferecida a Oxum).

Aberém
Bolinho de origem afro-brasileira, feito de milho ou de arroz moído na pedra, macerado em água, salgado e cozido em folhas de bananeira secas. (No candomblé, é comida-de-santo, oferecida a Omulu e Oxumaré).

Abrazô
Bolinho da culinária afro-brasileira, feito de farinha de milho ou de mandioca, apimentado, frito em azeite-de-dendê.

Acaçá
Bolinho da culinária afro-brasileira, feito de milho macerado em água fria e depois moído, cozido e envolvido, ainda morno, em folhas verdes de bananeira. (Acompanha o vatapá ou caruru. Preparado com leite de coco e açúcar, é chamada acaçá de leite.) [No candomblé, é comida-de-santo, oferecida a Oxalá, Nanã, Ibeji, Iêmanja e Exu.]

Abará
Bolinho de origem afro-brasileira feito com massa de feijão-fradinho temperada com pimenta, sal, cebola e azeite-de-dendê, algumas vezes com camarão seco, inteiro ou moído e misturado à massa, que é embrulhada em folha de bananeira e cozida em água. (No candomblé, é comida-de-santo, oferecida a Iansã, Obá e Ibeji).

Aluá
Bebida refrigerante feita de milho, de arroz ou de casca de abacaxi fermentados com açúcar ou rapadura, usada tradicionalmente como oferenda aos orixás nas festas populares de origem africana.

Esses são então alguns pratos tipicamente africanos que hoje se encontram visceralmente inseridos na mesa dos brasileiros. Além deles existem inúmeros que por uma questão de espaço não serão citados. Há que se fazer menção, contudo da feijoada, orgulho nacional, que também tem a sua origem ligada à história dos primeiros africanos nas senzalas do período colonial brasileiro. Do que dá pra tirar a conclusão de que no campo da culinária, muito daquilo que hoje a gente considera como tipicamente nacional não passa de apropriação da cozinha africana.


http://eudesenholetras.wordpress.com/

Cozinha, lugar de aventuras e descobertas mais do que apenas saborosas...Descobertas de uma vida e de uma história de um povo.

Valorizando novas vidas e novas idéias...

domingo, 7 de março de 2010

Transmitindo saberes

A presença da linguagem oral é marcante nas culturas africanas, em que os griots (ou “griôs”, em português) são as pessoas responsáveis pela manutenção e promoção da oralidade como fonte e difusora da cultura e da história. Entre os griots estão contadores de histórias, músicos, poetas, enfim, mestres na arte da retórica. Seu trabalho é passar às novas gerações os conhecimentos alcançados através do tempo, dos eventos, dos espaços freqüentados, atendo-se às raízes de seu povo de forma a preservar a memória e as tradições culturais de seus antepassados.

Para contemplar esta tradição oral da cultura africana é realizada a palestra “Hora do Griot”. O desenvolvimento desta atividade é cargo do palestrante senegalês Ibrahima Gaye, um verdadeiro griot africano radicado no Brasil desde 1998. A palestra é preparada para um público de até 80 alunos, mas aberta também à presença dos professores. Em sua narrativa, Gaye relata de uma forma clara e divertida a África em que cresceu, desmistificando estereótipos, de maneira encantadora – como foi possível constatar pela reação das crianças e adolescentes que participaram das atividades do CAE piloto.


A palestra “Hora do Griot” tem três pontos altos a serem destacados. O primeiro dele é a expressão de respeito dos povos africanos entre as pessoas, especialmente em relação às mais velhas. Esta relação tão intrínseca pode compreendida nas palavras do filósofo e escritor malinês Amadou Hampaté Bâ: “Na África, um velho que morre é uma bibliotéca que queima!”. Esta reflexão promove novas discussões em relação a disciplina básica de nossas crianças, bem como a dos adultos. O segundo fator de destaque é visível nos olhares surpresos dos alunos participantes, tamanha a diversidade linguística do continente. O palestrante conta que, no Senegal, por exemplo, as crianças aprendem 1três idiomas internacionais na escola pública (francês, inglês e, em seu caso, o espanhol), fora outras línguas nativas e o árabe, pelo menos para a maioria muçulmana do país. Uma realidade impensável para as nossas crianças. O terceiro ponto é uma a exposição fotográfica sobre a cultura e o desenvolvimento africanos. Ao mostrar cidades como Dakar, com seus prédios e suas ruas urbanizadas, novamente desconstrói esteriótipos amplamente disseminados no ocidente e que carregam à idéia de que no Continente Negro só existe vida selvagem.

http://www.centrocultural.m2014.net/?lang=pt_br


Muito semelhante com nossas rodas de história e de contos.Essas transmissões de conhecimentos de forma oral é uma maneira de se manter e valorizar a cultura de um povo.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Presença Africana

Alda Lara

Presença Africana
E apesar de todo,
ainda sou a mesma!
Livre esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou,
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou, a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...
A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendêm
nascendo dos abraços das palmeiras...

A do sol bom, mordendo
chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11! ... Rua 11...)
pelos meninos
de barriga inchada e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força deste dia...

E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
longa história inconsequente...

Minha terra...
Minha, eternamente ...

Terra das acácias, dos dongos,
dos colios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.

Ainda sou a que num canto novo
pura e livre
me levanto,
ao aceno do teu povo!


http://poemasafricanos.blogspot.com/

O Ser Africano


¨África, o continente preto, já uma metáfora que significa a exploração, o sofrimento e a escravidão, mas também o universo mágico e encantatador. É o continente das saudades e do mistério. Quem representa esta África? E o que é o ser africano?
Muitos poemas descrevem a mulher negra como símbolo de África: exótica, sedutora, e violada. O amor para a mulher africana significa o amor e as saudades para este continente feiticeiro e sedutor. Nunca os poetas dos cinco países africanos se identificaram com o seu país natal, mas sentem-se africanos, mesmo que alguns sejam luso-descendentes ou tenham um pai português. Eles sentem-se parte da toda a África, pertencem ao continente mágico e não a um país com fronteiras nacionais. Geraldo Bessa Victor de Angola exprime o seu sentimento pela África na elegia Poema para a Negra. Tem uma forma tradicional, com cinco estrofes de quatro versos, e mantém os versos dois e quatro. Podemos aperceber-nos uma vez de mais da repetição da frase, com a qual cada estrofe começa. Descreve as qualidades do corpo e da graça da mulher negra que cantem "os outros", enquanto o poeta senta o "ser africano" nestas qualidades. Alda Lara, em Presença Africana, descreve a essência africana, a Mãe-África, que se vê em imagens pitorescas de natureza e no potencial do povo. Ela tem laços fortes com sua terra e o seu povo. Armando Artur, de Moçambique, no seu poema Pelo Dever, descreve qualidades africanas, a perseverança e paciência, que fazem parte desta essência africana. Por necessidade, os africanos, cujas existência, cujas utopias foram destruídas repetidamente, aprenderam uma perseverança indestrutível como a erva daninha. E para o poeta e pintor Neves e Sousa no poema Angola, ser africano é um sentimento forte de identificação, que transgride fronteiras de países e da cor de pele. Em todos os poemas, ser africano é ter amor por esta terra.¨


Lendo sobre a mulher africana podemos observar várias nuances muito parecidas com a mulher brasileira e sua vida e seus desejos e amores, sofrimentos e sonhos...Claro que as mulheres do mundo se parecem, mas as brasileiras e africanas possuem características de vida muito singulares.